18/12/2015
Ana Gomes e a criação da guarda costeira e de fronteiras europeia, participa nos debates sobre migrantes e refugiados, as relações UE-China, os direitos humanos e democracia no mundo e o controlo da exportação de armas
Na última sessão plenária do Parlamento Europeu de 2015, em Estrasburgo, um dos assuntos na agenda incidiu sobre as medidas adotadas pela Comissão Europeia para criar uma guarda costeira e de fronteiras europeia, no quadro da Agenda Europeia para as Migrações e da Agenda Europeia para a Segurança. Ana Gomes participou no debate lembrando que em 2013 fora ela própria autora de um relatório sobre dimensão marítima da política comum de segurança e defesa que o parlamento aprovou e em que se pedia, precisamente, a formação de uma função europeia de guarda costeira. No entanto, disse Ana Gomes, "os Estados-membros puseram-na fora da estratégia europeia de segurança marítima, reféns de uma visão obsoleta da soberania nacional. Agora, anuncia-se a criação de uma guarda costeira europeia por transformação do Frontex, mas continua a não se articular a experiência das nossas Marinhas nesta matéria e nem sequer se reforçou o Frontex suficientemente, como previa o plano de abertura dos hotspots para acolher e registar refugiados e migrantes", apontou. Para Ana Gomes é preocupante "que tudo esteja a ser impulsionado pelo desejo de impedir a entrada de refugiados e migrantes e de retornar gente que nos pede proteção". De facto, "se este pacote de medidas visa reforçar a cooperação europeia, tem de fazer valer as responsabilidades da União na proteção dos direitos humanos, incluindo de refugiados e migrantes, que nenhuma medida de segurança, nomeadamente no domínio do contraterrorismo, justifica violar".
O debate sobre migrantes e refugiados
No debate centrado na questão da detenção e uso da força contra migrantes e requerentes de asilo na União Europeia, Ana Gomes criticou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, por ter advogado a detenção de migrantes e refugiados. "Envergonhou a União Europeia", disse a eurodeputada socialista, que é membro da comissão Parlamentar das Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos, dizendo ainda que as palavras de Tusk espelhavam "a deriva 'orbanesca' com que líderes europeus vêm cavalgando a insegurança dos cidadãos face às crescentes ameaças do desemprego, da desigualdade e do terrorismo". "Os refugiados - que a UE tem a obrigação legal e moral de acolher - e os migrantes - que temos interesse económico e social em receber nas sociedades europeias envelhecidas - só vão deixar de vir massiva e descontroladamente se a União Europeia se empenhar na solução dos conflitos e na luta contra o terror de que eles fogem". Para Ana Gomes "controlar e gerir a vaga de refugiados e migrantes que chegam à Europa passa necessariamente por criar canais seguros e legais para a análise organizada dos seus pedidos de entrada na Europa, sendo este também o modo mais eficaz de retirar o lucro às redes de traficantes de seres humanos". "Mas estes canais têm sido ignorados pelos nossos governantes" denunciou. "Virar costas a quem precisa de proteção é acabar com o projeto europeu, é fazer o jogo dos traficantes e dos terroristas. Não vai nem travar o afluxo de refugiados, nem dar segurança aos nossos cidadãos!".
As relações UE-China
No debate sobre as relações União Europeia-China, Ana Gomes defendeu a necessidade de prosseguir o diálogo com a China, incluindo sobre temas de criminalidade organizada que no mês passado levaram uma delegação parlamentar a Pequim, que a eurodeputada integrara. Temas como a proteção de dados, cibersegurança e produção de drogas sintéticas "e outras formas de crime organizado que vem da China ou passa pela China" deviam continuar a ser discutidos. Ana Gomes considerou que a UE tem interesse estratégico numa relação leal com a China, também em matérias de segurança global "para os quais a China tem de contribuir de forma construtiva e consistente com as suas obrigações no quadro do direito internacional e dos acordos com a União Europeia". E por isso a UE não deveria abster-se de pedir a Pequim que abandone "a censura e a repressão internas sobre minorias tibetanas e uigures, cristãos, seguidores da Falun Gong e não só. "A China tem 23 jornalistas presos e o julgamento do advogado Pu Zhiqiang é só o mais recente caso em que o regime dá tiros no pé ao tentar silenciar ativistas de direitos humanos", observou a eurodeputada socialista.
Direitos humanos e democracia no mundo
Sobre o Relatório Anual 2014 de direitos humanos e democracia no mundo, Ana Gomes destacou o agravamento das condições de trabalho de ativistas falsamente acusados e perseguidos por terrorismo ou restringidos por leis sobre registo e financiamento de organizações não governamentais. Salientou, neste quadro, que UE e Estados-membros continuam com políticas "contraditórias, inconsistentes e contraproducentes", defendeu que o representante especial para os direitos humanos da UE devia poder falar publicamente em nome da União e que as delegações da UE deveriam resistir a pressões e interferências políticas das autoridades locais. "Assim não aconteceu com Concetta Tirzi, expulsa pelas autoridades angolanas, com inadmissível cumplicidade europeia, por ter promovido encontros com ativistas como Luati Beirão e outros, hoje presos e sujeitos a julgamentos farsas. Para não falar das delegações da União Europeia que vergonhosamente se autocensuram, como acontece na Etiópia, onde o regime está a reprimir e a matar estudantes oromos e a delegação da UE continua muda e a enterrar a cabeça na areia".
Relatório sobre o controlo da exportação de armas
Ana Gomes enalteceu o relatório sobre o controlo da exportação de armas aprovado pelo Parlamento Europeu e defendeu, no debate que antecedeu a votação, ser urgente criar uma autoridade de controlo independente e um mecanismo de comunicação padronizado para todos os Estados-membros, com sanções por violações da posição comum sobre exportação de armas adotada pelo Conselho da UE em 2009. Ana Gomes sublinhou que a os países da UE são responsáveis por mais de um terço do comércio mundial de armas e que o sector da defesa da UE é ainda "extraordinariamente opaco e corrupto, por inação ou desígnio dos Governos". É, por isso, urgente, que prestem contas detalhadas sobre as suas exportações. "É a segurança dos nossos cidadãos, da nossa vizinhança e global que está em causa, como demonstram os recentes atentados terroristas de Paris, executados com armas e explosivos produzidos e facilmente adquiridos aqui na Europa". Sublinhou ainda que, conforme a posição comum, "os Estados-membros não podem transferir armas ou equipamentos militares ou de duplo uso para países que possam usá-los na repressão de civis ou possam desviá-los e traficá-los para fins ilegais, nomeadamente chegando às mãos de grupos terroristas".