23/07/2012
Europa, onde estás ?!
(Publicado no Acção Socialista - Suplemento Europa)
A questão impõe-se. Onde está a Europa perante as crises do Sahel à Síria, passando pela Somália, Sudões e Palestina, e da Líbia à Guiné Bissau passando pelo Mali, onde impunemente uns energúmenos copiam os talibãs afegãos no zelo destruidor do património da humanidade?
PESC (Politica Externa e de Segurança Comum) e PCSD (Politica Comum de Segurança e Defesa) não estão a funcionar. Não é por falta de doutrina estratégica, "hardware" diplomático, económico ou militar ou de recursos humanos qualificados: é por falta de visão, ambição e vontade politica da liderança europeia.
A UE está embrulhada na crise interna, de cabeça enterrada na areia, centrada sobre o seu umbigo. O que os dirigentes europeus ainda não perceberam é que, ao alhearem-se da resolução de cada uma das crises e conflitos na vizinhança, estão de facto a contribuir para que se agravem os problemas de subdesenvolvimento, pobreza, corrupção, má governação e insegurança humana que cada vez agudizarão mais esses mesmos conflitos. E assim fazem a Europa descurar o seu próprio interesse e agravar as ameaças que sobre si mesma pesam, projetando uma imagem de desconcerto e de vulnerabilidade, tornando assim ainda mais difícil a superação da crise.
Há falta de visão na liderança da UE para entender que uma política externa e de segurança europeia robusta e coerente pode contribuir para ultrapassar a própria crise económica e financeira. E o adjetivo "europeia" não significa britânica, francesa, espanhola ou portuguesa, nem alinhar pelo menor denominador comum 27: tem de servir a UE no seu conjunto e ser ambiciosa, e norteada pelos valores e interesses comuns, sob coordenação da Alta Representante/Vice-presidente da Comissão Europeia, embora possa mobilizar apenas contribuições dos mais aptos e interessados Estados Membros.
São óbvios os dividendos para a segurança da Europa que resultam da estabilização democrática na sua vizinhança, mas há também proveitos a alcançar em todos os campos e no âmbito global, incluindo oportunidades económicas.
Basta ver os exemplos positivos e cheios de promessas que resultam das eleições livres e democráticas em Timor-leste e na Líbia, ambas ocorridas no passado dia 7 de julho: para ambas contribuiu decisivamente a UE, em distintos momentos e por diversas formas, quando soube unir-se e agir com ambição e sentido estratégico.
Se se levar a sério e fizer o que lhe compete enquanto ator global, a Europa será também levada a sério pelos seus parceiros internacionais - dos Estados Unidos aos emergentes BRICS - nos domínios económico, financeiro, politico e em todos os planos da regulação da globalização, que é condição sine qua non para a Humanidade vencer uma crise que não é só de fabrico europeu, pois decorre da interdependência global não regulada.