19/11/2012
Obama reeleito: alívio e expectativa
(Publicado no Acção Socialista - Suplemento Europa)
A reeleição de Barack Obama é uma boa notícia para os Estados Unidos, para a Europa e para o mundo. Além do alívio geral, recrudescem as expectativas. Pois com Obama os EUA voltaram a ser um parceiro frequentável, cooperante, responsável e estimulante.
O novo mandato presidencial poderá permitir reforçar a cooperação transatlântica, se a UE souber aplicar o seu capital político e diplomático, nos domínios da regulação financeira, do comércio, da protecção ambiental e da segurança global. Por muito que a emergência da China e outros "tigres" asiáticos desviem atenções de Washington para o Pacífico, é ao Atlântico que americanos e europeus virão sempre reabastecer-se, nas sinergias geradas pelos valores civilizacionais comuns.
Este presidente pode fazer o que mais nenhum até aqui conseguiu. E o mundo, não só a América, bem precisa de liderança esclarecida, corajosa e dialogante.
Médio Oriente: o teste
Basta ver a recente crise na faixa de Gaza e a conflagração generalizada que uma escalada com invasão terrestre, como ameaçava Israel, poderia ter desencadeado, numa região já a ferro e fogo com a guerra civil na Síria, o afluxo de refugiados aos países vizinhos e alta tensão em torno do programa nuclear iraniano. Os EUA agiram com rapidez e eficácia (UE, onde pairou?): fizeram declarações de apoio incondicional à segurança de Israel, mas Obama pôs-se logo ao telefone com Mohamed Morsi, o militante da Irmandade Muçulmana que hoje é presidente do Egipto. E mandou a Secretária de Estado Hillary Clinton a correr respaldar o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, enquanto nos bastidores torcia o braço aos falcões israelitas e inteligentemente encorajava os egípcios a posicionarem-se à frente das negociações entre israelitas e palestinianos. E o cessar-fogo foi conseguido.
Importa que a administração Obama dê o passo seguinte, indispensável: o estabelecimento de uma paz duradoura e justa no Médio Oriente exige o reconhecimento internacional dos dois Estados. E implica fazer Israel congelar a construção de colonatos, permitindo um reequilíbrio mínimo entre as partes para retomarem conversações sobre demarcação de fronteiras, retorno dos refugiados e estatuto de Jerusalém. Há agora uma janela de oportunidade que o Presidente reeleito não pode perder: a de viabilizar o reconhecimento da Palestina como Estado observador na ONU. Para isso é preciso convencer o povo israelita - e não só os seus governantes - de que o reconhecimento da Palestina é do seu fundamental interesse: é chave para a segurança de Israel, face a uma trajectória demográfica que faz incompatíveis os termos democracia e "estado judeu", ainda por cima numa região que a Primavera Árabe tornou muito mais inflamável.
A classe média é a chave
No domínio económico, Obama é certamente boa notícia para a Europa. A actual liderança conservadora da UE deveria lançar os olhos para o outro lado do Atlântico para se instruir quanto a métodos para combater a recessão: não é contra a classe média que se vence a crise, esmagando-a, e aos mais pobres, com o bombardeamento da austeridade "custe o que custar" de Merkel e seu submisso Coelho.
Na resposta à recessão económica causada pela crise financeira que herdou de Bush e de décadas de criminosa desregulação neo-liberal, Obama mostrou saber aprender as lições. Erigiu como prioritária a defesa das classes médias como centro de gravidade da democracia e soube construir uma narrativa progressista e inspiradora de esperança. Adoptou medidas de re-industrialização e de promoção do emprego, cuidando de diminuir a dependência energética do país apostando em energias renováveis e na inovação tecnológica. Empenhou-se no reforço da protecção social que a crise tornou ainda mais imprescindível: contra os interesses instalados do "big business", Obama lutou e impôs o "Obamacare". E alargou as políticas sociais de protecção dos direitos das mulheres e das minorias, incluindo a legalização de emigrantes - o que lhe rendeu o voto decisivo da maioria feminina e da pluralidade étnica que cresce nos EUA. Que contraste com uma UE que se enterra na recessão e parece apostada em destruir uma das suas mais importantes contribuições civilizacionais, o Estado Social...
Obama tem promessas ainda a cumprir - fechar Guantánamo, ostensivamente. E tem políticas indefensáveis a corrigir - detenções por tempo indefinido e assassínios selectivos com "drones", por exemplo. Mas investiu e promete continuar a investir numa sociedade mais justa, mais regulada e mais democrática, nos EUA e globalmente. A visão humanista, cosmopolita e progressista que articula convoca-nos para fazer face aos desafios.