18/03/2013
Síria: 2 anos de guerra civil
(Publicado em Acção Socialista - Suplemento Europa)
São dois anos de guerra civil, 70 mil mortos, um milhão de refugiados, três milhões de deslocados. A situação na Síria é de desastre humanitário e de uma calamidade política que desenha o drama de mais um possível estado falhado, desta vez no Médio Oriente. A Síria torna-se espelho de uma primavera árabe que virou inverno. E que grita uma vergonhosa demissão por parte da comunidade internacional.
António Guterres, Alto-Comissário da ONU para os Refugiados, já alertou para o risco de "explosão" do número de refugiados para o dobro ou o triplo até ao fim deste ano. Falta-nos, é certo, um mandato das Nações Unidas, por obstrução da Rússia e da China no Conselho de Segurança. Mas podemos e devemos, ao menos, fazer mais por um esforço humanitário robusto, que leve assistência às zonas libertadas e que ajude mais os países vizinhos que estão a acolher os refugiados sírios, com riscos para a sua própria estabilidade (casos do Líbano, Jordânia e Iraque). Hoje há relatos de que parte da ajuda humanitária europeia se concentra em Damasco e acaba por ir parar às mãos...de Assad. Que, pelo seu lado, nunca deixou de receber armamento e apoio da Rússia e do Irão...
Mas, sejamos honestos: não é a ajuda humanitária que vai resolver o conflito. O fim da guerra civil na Síria depende de uma solução política e para isso é preciso um esforço concertado internacionalmente, promovido nomeadamente por uma União Europeia com ambição e visão para a sua diplomacia. Uma União Europeia (UE) que hoje não parece termos, desgraçadamente, pois a incapacidade de extrincar a Europa da crise económica é, de facto, política, e tem graves repercussões na eficácia e na credibilidade da actuação europeia no plano externo.
Para pôr fim à guerra na Síria seria fundamental que, antes de mais, a UE se empenhasse no diálogo com Moscovo e com Pequim, exigindo o fim do bloqueio político que ata as mãos do Conselho de Segurança, se necessário mostrando que há um preço para a cooperação entre Bruxelas e aquelas duas capitais. Sem ingenuidades, é preciso reconhecer que a Europa tem aqui feito pouco e demasiado baixinho...
Outro domínio, necessariamente difícil, mas onde, por isso mesmo a UE podia fazer mais do que tem feito, respeita à promoção do diálogo e organização de uma plataforma de convergência nacional e democrática entre as principais forças políticas de oposição ao regime de Assad. Uma necessidade tão mais imperativa e complexa quanto é sabido que grupos fundamentalistas e terroristas se aproveitam do arrastamento do conflito para infiltrar as forças combatentes da oposição, entretanto armadas pelo Qatar e a Arábia Saudita.
Na falta de respostas globais que partam da Alta Representante para a Politica Externa, é inevitável que alguns Estados-Membros tentem fazer sozinhos aquilo para que não parece poder fazer-se a 27. E aqui reside outro perigo que subtrai capacidade e eficácia à política externa da UE.
França e Reino Unido, por coincidência, membros permanentes do Conselho Segurança, anunciam agora, seguindo a Administração Obama, querer também armar os rebeldes sírios, numa movimentação unilateral, sem base legal, em contradição com o embargo de armas à Síria decretado pela própria UE. Mais uma vez, é a Europa política e da segurança e defesa que sai debilitada de jogadas como esta, feita em nome duma alegada "responsabilidade". Uma jogada que muito mal faz, também, ao essencial conceito da "responsabilidade de proteger", que a UE deveria defender e promover. Mais uma vez, alguns governos tiram o tapete a uma acção coordenada a 27 e, num solavanco desajeitado, hipotecam a projecção da UE como actor político da segurança global.
O fornecimento de armas a quaisquer das partes em conflito na Síria não faz mais senão prolongar esta sangrenta guerra civil. Mais, a UE não poderá nunca saber exactamente quem alguns dos seus Membros estarão a armar, no colo de quem essas armas vão cair, nem o que resultará de um expectável incremento da corrida ao armamento na região. O perigo é tanto maior quanto o conflito na Síria é facilmente contaminável aos países vizinhos, tem implicados grupos radicais e terroristas e tende a cristalizar a fractura religiosa sunita/chiita. Além disso, fornecer armas a rebeldes sírios equivalerá a dar carta branca a russos e iranianos para intensificarem o armamento aos fiéis de Al Assad.
Em vez de armar os rebeldes, era preciso ver em acção a UE a falar com uma só voz, capaz de dizer o que se impõe e com as capitais europeias determinadamente alinhadas detrás de uma concertação política levada a todos os "fora" internacionais, e em especial ao Conselho de Segurança, onde Londres e Paris têm responsabilidades particulares.
Jogam-se vidas, um Estado e um povo com lastro civilizacional na História da Humanidade. E a Paz numa das regiões mais martirizadas do planeta, o Médio Oriente. A UE não pode dar-se ao luxo de se dividir e de se alhear!