19/03/2012
Atacar Irão não trava programa nuclear
(publicado no Acção Socialista - Suplemento Europa)
Bombardear o Irão, a pretexto de acabar com o programa nuclear - ainda que civil, mas facilmente convertível em militar - não seria "trigo limpo" para Israel, como foi a destruição da central nuclear de Osiraq, no Iraque, em 1981, ou a de Al Kibar, na Síria, em 2007: não só as centrais nucleares iranianas estão disseminadas e junto a aglomerados populacionais, como um ataque instigaria Teerão a acelerar o enriquecimento de urânio.
O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu esteve no início deste mês em Washington para evocar a ameaça existencial que o Irão de Ahmadinejad coloca a Israel e agitar a possibilidade de um ataque militar ao Irão. Mas, por muito que precise de agradar à comunidade judaica em ano de eleições, o Presidente Obama sabe que um ataque militar unirá o povo iraniano em torno do regime dos ayatollahs e justificará que o Irão passe a investir abertamente em capacidades nucleares militares, a pretexto de se defender. A verdade é que, se o regime iraniano desejar mesmo ter a bomba nuclear, vai tê-la, mais cedo ou mais tarde, com ou sem bombardeamento - como avisam especialistas israelitas militares e dos serviços secretos, procurando dissuadir os "falcões" de Israel e EUA de aproveitar este ano para precipitar um ataque. Esses mesmos especialistas avisam para a vulnerabilidade em que se acharia a segurança de Israel na região se não conseguisse destroçar completamente o arsenal nuclear iraniano. Além de que Teerão teria sempre capacidade de retaliar por meios convencionais...
Uma das mais graves consequências do jogo de rato e gato para que Teerão continua a desafiar a comunidade internacional, por interposta AIEA e em violação dos seus deveres como membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear, respeita à corrida ao armamento nuclear a que incita outros países da região. Egipto, Jordânia e sobretudo Arábia Saudita sentem-se tão ameaçados como Israel com a perspectiva do poder nuclear iraniano (ou mais ainda, pois Israel, embora não o declare, há muito que tem a protecção de o possuir...). Nos confrontos assassinos que hoje se travam na Siria está bem presente esta dimensão de conflito sunita/chiita que opõe o Irão à Arábia Saudita e outros regimes do Golfo.
Para evitar a catástrofe para a região (e não só, até porque o preço do petróleo se ressentiria imediatamente) que um ataque militar israelita a Teerão certamente implicaria, como deve posicionar-se a União Europeia?
Deve, antes de mais, reforçar a pressão diplomática sobre Teerão e garantir que são rigorosamente obedecidas por todos os Estados Membros as sanções económicas e financeiras decretadas. Que, juntamente com as americanas, já estão a ter impacto, até nas dissensões dentro do regime iraniano, a ponto de se especular que o Supremo Líder Khamenei se apresta a por na rua Ahmadinejad e que muitos altos quadros ponderam a vantagem de comprar o reconhecimento americano, em troca de largar as veleidades do poderio nuclear.
A Alta Representante Catherine Ashton deve também esforçar-se, no contexto do diálogo transatlântico, por alinhar a Administração Obama num esforço diplomático que afaste a intervenção militar - neste sentido é fundamental demonstrar que a UE, designadamente no quadro das conversações 3+3 (Reino Unido, França, Alemanha + EUA, China, Rússia), está disponível para explorar todas as oportunidades de negociação com Teerão sobre o respectivo programa nuclear. E, finalmente, cabe à UE redobrar esforços no apoio concreto às forças da sociedade civil iraniana que continuam a lutar contra o regime opressivo e intolerante dos ayatollahs, encorajando-as a organizar-se e mandando-lhes sinais inequívocos de que a UE não venderá o apoio aos direitos humanos no Irão por um qualquer negócio no dossier nuclear.
Ana Gomes, MPE