11/07/2016
Artigo de opinião publicado no Suplemento Europa "Brexit: A Ressaca"
O resultado do referendo de 23 de Junho no Reino Unido foi determinado por uma campanha populista, mentirosa e racista, cujos protagonistas desertaram num piscar de olhos do palco político, quando confrontados com as consequências já desastrosas para a economia e reputação do país. Mas é importante não ignorar as motivações dos muitos brexiters que rejeitam a atual UE: para além fatores especificamente britânicos, pesaram outros igualmente sentidos no Continente. Em possíveis referendos noutros Estados-Membros também poderiam recolher-se resultados semelhantes, pelo descontentamento e insegurança reinantes entre os cidadãos de uma UE que não está a cumprir o que se propunha, em consequência de décadas de políticas neo-liberais de desregulação financeira, seguidas de austeridade anti-emprego e anti-crescimento.
O Brexit, pelas graves repercussões para a própria UE, deveria impor um sobressalto na liderança europeia, uma viragem política.
Não basta pedir a reinvenção da Europa, passando ao lado da questão central: é necessário que a União volte a ser União, no respeito pelos princípios e valores que animaram a sua criação e que deveriam guiar as políticas europeias. Mais democracia é necessária e não significa mais referendos, que se prestam a instrumentalizações populistas. É preciso mais controlo democrático da zona euro, uma Europa mais clarividente e ambiciosa nas políticas económicas e sociais, a combater e não a fazer aumentar as desigualdades, capaz de dar respostas coordenadas na luta contra o terrorismo, contra os paraísos fiscais e a selva fiscal que reina entre Estados-Membros, capaz de acolher solidariamente os refugiados, e de dar resposta eficaz a tantos outros desafios com impacto direto na vida das pessoas, a que nenhum Estado-Membros sozinho consegue já enfrentar no mundo globalizado e interdependente em que vivemos. Neste contexto, sancionar Portugal e Espanha é exatamente o oposto do que Comissão e Conselho deveriam estar a fazer.
O acordo de divórcio a ser negociado entre a UE e o Reino Unido, tão rapidamente quanto possível, tem de implicar defender os cidadãos europeus, em especial aqueles que hoje se vêm alvo de vergonhosa campanha xenófoba na sociedade britânica. O Mercado Único não pode funcionar a la carte: se o Reino Unido (ou o que dele restar) quer manter acesso, tem de respeitar as liberdades europeias fundamentais, incluindo a da livre circulação de pessoas.
O Brexit, sendo um grave golpe contra a UE, pode ser acabar por ser transformado numa oportunidade. Desde que as lideranças europeias aprendam rapidamente com os seus próprios erros.